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abril 14

Entrevista com Lívia Maria Villela de Mello Motta

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Professora Lívia

Professora Lívia

O primeiro post deste site é para lá de especial. Ninguém melhor para explicar sobre a audiodescriç

ão do que a professora Lívia Maria Villela de Mello Motta, professora doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC de São Paulo, com parte de seu doutoramento feito na Universidade de Birmingham, Reino Unido.

Lívia trabalha como audiodescritora e professora de cursos de audiodescrição desde 2005, tendo assumido, em seguida, a coordenação dos recursos de acessibilidade comunicacional no Teatro Vivo, o primeiro teatro brasileiro com acessibilidade para pessoas com deficiência visual e mais tarde também para pessoas com deficiência auditiva e surdos. Foi responsável pela exibição da primeira peça e da primeira ópera com audiodescrição no Brasil. Trabalhou como consultora do MEC/UNESCO e criou o site e blog: VER COM PALAVRAS, que tem como objetivos a divulgação da audiodescrição nos mais diversos contextos. Organizou junto com Paulo Romeu Filho o primeiro livro brasileiro sobre o tema: AUDIODESCRIÇÃO: TRANSFORMANDO IMAGENS EM PALAVRAS.

 

1)      Como a senhora vê o cenário da audiodescrição no Brasil?

A audiodescrição é um recurso ainda novo no Brasil; data de 2003 a primeira apresentação formal com o recurso, nas apresentações dos filmes curta-metragens do Festival Assim Vivemos, no Rio de Janeiro. De lá para cá, neste período de 10 anos, muito avançamos tanto no número e tipos de produtos, espetáculos e eventos que passaram a ter audiodescrição, como na questão de formação de plateia, que aprecia os filmes e espetáculos por meio das palavras. Mais e mais pessoas com deficiência visual têm tido acesso a espetáculos e filmes com audiodescrição e a partir da primeira experiência com o recurso passam a reivindicar mais acessibilidade em espaços culturais, buscam por outros produtos acessíveis.

A experiência de assistir a um filme, evento, peça de teatro, ópera ou espetáculo de dança com audiodescrição promove uma equiparação de oportunidades, um sentimento único de inclusão e pertencimento. Quem passa por ela, quer mais, percebe o quanto perde de informações em um produto audiovisual sem acessibilidade.

São Paulo é a capital em cujos espaços culturais mais têm sido apresentados espetáculos e eventos com audiodescrição, seguida pelo Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Manaus e Salvador. Professores pioneiros na implementação do recurso têm sido responsáveis pela formação de audiodescritores, até o momento no formato de extensão universitária, oficinas ou cursos livres. Agora em março, iniciaremos o 1º Curso de Especialização em Audiodescrição na Universidade Federal de Juiz de Fora em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos, uma ação importante que contribuirá para a disseminação da audiodescrição Brasil afora, pois formará 50 audiodescritores roteiristas, narradores e ou consultores distribuidos por todas as regiões brasileiras.

 

2)      A audiodescrição pode ser considerada um novo mercado de trabalho?

 A audiodescrição é um recurso de acessibilidade comunicacional, uma modalidade de tradução intersemiótica que transforma o visual em verbal, ampliando o entendimento das pessoas com deficiência visual em tudo aquilo que assistem (produtos audiovisuais, espetáculos teatrais, de dança, de ópera, de circo, eventos acadêmicos, corporativos, turísticos, esportivos e sociais), por meio de informação sonora. Além das pessoas com deficiência visual que compõem o público alvo da audiodescrição, pessoas com deficiência intelectual, idosos, autistas, disléxicos, pessoas com déficit de atenção e outros também podem ser beneficiados pelo recurso. A profissão de audiodescritor foi, recentemente, incluída no Código Brasileiro de Ocupações, na família de tradutores, intérpretes de língua de sinais, filólogos e linguistas, como uma primeira etapa para o reconhecimento da profissão.

Os recursos de acessibilidade comunicacional tais como audiodescrição, legendas, interpretação em LIBRAS (língua brasileira de sinais), materiais impressos em braille e ampliados, placas em dupla leitura para museus, maquetes e mapas táteis, audioguias com audiodescrição, tudo isso vem sendo cada vez mais procurado por teatros, museus, cinemas e outros espaços culturais que preparam-se para atender a diferentes públicos, tornando, desta forma a arte acessível. Além dos recursos, a demanda por profissionais também vem aumentando, o que aponta para a necessidade de mais cursos de formação.

Este novo mercado profissional está se constituindo pouco a pouco a medida que a sociedade se conscientiza sobre a necessidade de oferecer oportunidades de acesso à cultura e à informação para todos.

 

3)      De que maneira a audiodescrição pode facilitar a comunicação no jornalismo?

 O post abaixo, publicado no blog VER COM PALAVRAS, em 16/03/2011, intitulado: A TRISTEZA DO JAPÃO, discute um dos aspectos de fundamental importância para os jornalistas: a presença das imagens nos jornais publicados online.

Charge

A charge de Jean mostra a bandeira do Japão: círculo vermelho em fundo branco, e sobre o círculo, do lado direito, uma lágrima. Poucas palavras traduzem a imagem tão pungente da dor japonesa. Sem uma legenda com a descrição, as pessoas com deficiência visual ficam sem acesso à charge, à forma sensível como o quadrinista Jean abordou a tragédia japonesa.

Hoje, com as versões digitais dos jornais, as pessoas com deficiência visual usuárias de leitores de tela, que transformam texto em áudio, podem ter acesso a todo o conteúdo do jornal no computador, com independência e autonomia. Um formidável avanço, uma ferramenta poderosa de inclusão!

Entretanto se legendas com a descrição das imagens, fotos, charges, infográficos e outros, que ilustram as matérias,  e que são parte integrante das publicações, não forem inseridas ao texto, o leitor de tela não fará sozinho a leitura da imagem, o que, sem dúvida, impede o pleno acesso ao conteúdo textual e imagético. Incluir descrição textual em imagens/charges é rápido, simples e não tem custos adicionais. Basta solicitar ao programador que, no momento da criação da página, relacione as figuras aos respectivos textos descritivos. Ele certamente sabe como fazer isso, e não gastará mais do que 30 segundos para cada figura.

As imagens ilustram, provocam reflexões, despertam emoções, revoltam, estimulam, motivam, promovem a curiosidade e completam o entendimento do texto. Por que negar o acesso às informações contidas nelas?

 

4)      Qual a principal dificuldade encontrada para colocar audiodescrição em materiais audiovisuais?

 A maior dificuldade encontrada para inserir a audiodescrição em produtos audiovisuais refere-se ao pouco espaço entre falas de personagens. Em um documentário, por exemplo, enquanto o narrador está falando, várias imagens estão sendo mostradas. É necessário selecionar aquelas imagens que serão mais importantes para o entendimento e inserir a audiodescrição em um momento que comprometa menos o entendimento da mensagem.

Quanto mais trabalhamos com audiodescrição nos mais diversos produtos, espetáculos e eventos, mais percebemos sua complexidade e a importância da formação mais longa e aprofundada do audiodescritor. A audiodescrição é, sem dúvida, uma arte, a arte de traduzir imagens em palavras, produzindo no espectador as mesmas sensações e emoções de quem está enxergando as imagens.


Trabalhos realizados por Lívia

1.          Elaboração de roteiros para audiodescrição, narração e preparação de audiodescritores para: documentários, filmes, peças teatrais, óperas, espetáculos de dança clássica e contemporânea, peças infantis, festival de bonecos, desfiles de moda, congressos, seminários, ciclos de palestras, encontros, missas, casamentos, exposições em museus.

 2.          Planejamento e implementação de recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual em museus, exposições e mostras: audioguias com audiodescrição, programas e materiais instrucionais com descrição de imagens, cursos para preparação de monitores e outros.

3.      Elaboração de roteiro de audiodescrição para o livro de histórias: Simplesmente Diferente (Fundação Stickel).

4.          Elaboração de descrição de imagens para o audiolivro: Maria de Rodas.

 5.          Elaboração de descrição de imagens para a versão DAISY do livro: Pela Arte se Inclui da Secretaria de Estado da Cultura.

 6.          Elaboração de descrição de imagens para a versão DAISY do livro: Cara de São Paulo, do Museu Paulista.

 7.          Elaboração de descrição de imagens para a versão DAISY do livro: Baixa Visão na Infância da Secretaria de Estado da Pessoa com Deficiência.

 8.      Descrição de imagens estáticas para livros didáticos, manuais e outras mídias impressas .

9.          Descrição de imagens para Dicionário de Ruas: http://www.dicionarioderuas.prefeitura.sp.gov.br/PaginasPublicas/GaleriaImagens.aspx

10.      Elaboração e implementação de cursos de descrição de imagens estáticas para projeto e-DAISY.

11.      Participação na elaboração da Nota Técnica no 21 (BRASIL, 2012), divulgada em 10 de abril de 2012 pelo MEC, que traz orientações para a descrição de imagens na geração de material digital acessível – MecDaisy.

12.      Organização do livro: AUDIODESCRIÇÃO: TRANSFORMANDO IMAGENS EM PALAVRAS, junto com Paulo Romeu Filho, publicado pela Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Estado de São Paulo.

13.      Criação do site/blog: VER COM PALAVRAS.

14.      Trabalho de consultoria em audiodescrição para elaboração de material de formação de professores da Rede Pública de Educação: Comunicação Acessível – Apoio à Aprendizagem (vídeo produzido pela Fundação Padre Anchieta).

15.      Trabalho de consultoria em audiodescrição para MEC/UNESCO com elaboração de Guia para Professores e Curso de Formação de Professores para o uso da audiodescrição como recurso pedagógico.

16.      Elaboração e implementação de cursos de audiodescrição para Instituto Vivo, Teatro Amazonas, Laramara – Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual, Associação das Mulheres UNIMED, MEC, UNESP, Liceu de Artes de Ofícios, Universidade Federal de Juiz de Fora, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, Secretaria Municipal de Belo Horizonte, CAP Belo Horizonte.

17.      Elaboração de roteiros para audiodescrição dos documentários: Vida em Movimento, Zona Desconhecida, Cidade dos Anões, Janela da Alma, Doutores da Alegria, Pro Dia Nascer Feliz, Cego Oliveira, Loki, Contratempo, Educação Especial; Krenak e Kaingang; Pauê – O Passo de um Campeão.

18.      Elaboração dos roteiros dos filmes, preparação dos audiodescritores e revisão: Saneamento Básico, O Ano que Meus Pais Sairam de Férias, O Passado, Nossa Vida não cabe num Opala, O Cavaleiro Didi e a Princesa Lili, Xuxa em Sonho de Menina, O Náufrago, Um Sonho Possível, A Cor do Paraíso, O Leitor, Coração do Pai, Hasta la Vista.

19.      Elaboração dos roteiros das peças, preparação dos audiodescritores e locução: O Andaime, A Graça da Vida, O Doente Imaginário, Cartas de Amor, Figurinha Carimbada, A Cabra ou Quem é Sylvia, Vestido de Noiva, Mãe é Karma, A Música Segunda, O Doido, Escola de Mulheres, Olhe para Trás com Raiva, Sopros de Vida, Calígula, O Terceiro Sinal, Carroça de Mamulengos, O Amante do Meu Marido, Ensina-me a Viver, Deus da Carnificina, Mozart Apaga a Luz, Hécuba, A Vingança do Espelho: A História de Zezé Macedo, Macbeth, Ao Vencedor, As Batatas, A Mansão de Miss Jane, O Fantasma do Som.

 20.      Elaboração dos roteiros das óperas, preparação dos audiodescritores e locução: Sansão e Dalila,  Cavalleria Rusticana, Pagliacci, O Barbeiro de Sevilha, Tosca, Rigoletto, Don Pasquale, Norma, A Viúva Alegre, Romeu e Julieta, O Menino e a Liberdade, Falstaff.

 21.      Elaboração do roteiro e locução dos espetáculos de dança: do grupo inglês Candoco Dance Company, apresentado no Teatro Alfa; de vários espetáculos do Ballet da Cia Fernanda Bianchini, apresentados em São Caetano, Piracicaba, São Paulo; do Ballet Quebra Nozes, apresentado no Teatro Alfa; dos espetáculos No Singular da Quasar Cia de Dança e Francis Bacon da Companhia Ismael Ivo, da PLATAFORMA INTERNACIONAL ESTADO DA DANÇA, apresentada no Teatro Sérgio Cardoso.

22.      Elaboração do roteiro e locução dos desfiles de moda: desfile realizado pela Fundação Dorina Nowill para Cegos; do 2º, 3º e 4º Concurso de Moda Inclusiva realizado pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência.

23.      Elaboração do roteiro e locução de seminários e congressos: do Ciclo de Palestras Louis Braille Congresso Brasileiro de Turismo Acessível; III Conferencia Municipal dos Direitos das Pessoas com Deficiência de Mogi das Cruzes; Seminário de inclusão da pessoa com deficiência e mobilidade reduzida na educação para o trânsito; Seminário AIDP; Seminário AIDS e a Pessoa com Deficiência; 4º Encontro Internacional de Tecnologia e Inovação; Encontro de Gestores Públicos de Comunicação; 6º Encontro Fraternidade e Pessoas com Deficiência; Prêmio Folha de São Paulo – Empreendedor Social 2012; Lançamento do Centro de Treinamento Paraolímpico; Evento de Recepção aos Atletas Paraolímpicos.

24.      Planejamento e elaboração de recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual em MUSEUS: Espaço Perfume Arte e História (Boticário e Faculdade Santa Marcelina); Mostra OLHAR COM OUTRO OLHAR no Museu do Futebol; Exposição ARTE E ACESSIBILIDADE – EXPERIMENTAÇÕES ARTÍSTICAS PARA OS SENTIDOS no SESC SÃO CARLOS; Museu India Vanuíre em Tupã; Museu de Pernambuco (EXPOSIÇÃO SUZY MAGALHÃES).

25.  Elaboração de roteiro e locução para filmes da MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO 2010: Arcadia Lost, Paraíso Elétrico.

 26.  Participação na elaboração do roteiro, com revisão e supervisão do filme Colegas.

 27.  Audiodescrição do filme: O TEMPO E O VENTO de Jayme Monjardim, com direção de narração para DVD e audiodescrição de fotos de making off e audiodescrição de personagens.

28.  Audiodescrição dos espetáculos do 6º Festival Paulista de Circo, apresentado em Piracicaba no período de 12 a 15 de setembro de 2013.

29.      Audiodescrição da Mostra + Sentidos e UNLIMITED promovida pela Secretaria de Estado da Cultura e pela Associação Paulista dos Amigos da Arte/APAA, com a proposta de apresentar espetáculos reconhecidos por sua qualidade estética, produzidos por artistas com e sem deficiência, e que levam ao debate sobre a produção e o consumo da arte por todas as pessoas. Ao todo, se apresentaram 11 grupos e solistas do Brasil, Portugal e Escócia, com sete montagens inéditas em São Paulo.

30.      Audiodescrição das peças, stand-ups e espetáculo de circo no HSBC: OS HOMENS SÃO DE MARTE E É PRÁ LÁ QUE EU VOU; TUDO É TUDO, NADA É NADA com Marcelo Serrado; NELSON DANTAS E VOCÊS; MINHA MÃE É UMA PEÇA com Paulo Gustavo; UNIVERSO CASUO.

31.      Audiodescrição da peça DUELO de Tchecov, com Auri Porto e Camila Pitanga, no Centro Cultural São Paulo.

32.  Uso da audiodescrição em evento social: casamento de pessoas com deficiência visual.

33.      Uso da audiodescrição em missa: Primeira e Segunda Missas Acessíveis da Arquidiocese de São Paulo.

34.      Participação na elaboração do Projeto Igreja Acessível apresentado para a Arquidiocese de São Paulo.

35.      Organização do 1º e 2º Encontro Nacional de Audiodescrição, o primeiro em São Paulo em 2008 e o segundo em Juiz de Fora em 2012.

 36.      Curso de Introdução à Descrição de Imagens Estáticas para SIBI – Sistemas Integrados de Bibliotecas da USP.

37.      Coordenação do 1º Curso de Especialização em Audiodescrição no Brasil, oferecido pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

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